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Enquete ao vivo com QR code: o que aprendi diante de 350 pessoas (e quase tudo foi pelo que deu errado)

O que muda quando 350 pessoas respondem pelo celular, e as falhas que se repetem: o QR code que não leem, o subsolo sem sinal e quem volta atrasado.

Mauro Z · 4 min de leitura
Com 350 pessoas, minha impressão da sala era a das cinco primeiras fileiras. Com as respostas na tela, dá para ver a sala inteira. E se dez por cento ficam de fora, são trinta e cinco pessoas: uma turma inteira. Cada ponto é uma pessoa.

Falar para trezentas e cinquenta pessoas sentadas num auditório é uma conversa de mão única, por mais que a gente pergunte “tudo certo até aqui?” e alguém da terceira fila faça que sim com a cabeça. Nas palestras grandes que dei, o que mudou isso foi colocar as pessoas para responder pelo celular. Não porque o resultado da enquete fosse muito profundo (quase nunca é, numa palestra), mas porque pela primeira vez senti que estava me comunicando com a plateia, e não só na frente dela.

Vou contar como isso é visto do palco. Numa dessas palestras, com umas trezentas e cinquenta pessoas presentes, lancei as perguntas e as respostas começaram a chegar ao telão ao vivo. Isso me permitiu fazer algumas piadas com o que ia aparecendo (o público ri muito mais de si mesmo do que das piadas que a gente traz preparadas), mas também chegar a algumas conclusões com eles, à vista de todos. Sem esse telão, o que eu teria era a minha impressão da sala, que com trezentas e cinquenta pessoas é basicamente a impressão das cinco primeiras filas.

Agora a parte honesta. É a que mais ensina. Houve falhas, e as falhas se repetem em quase todas as palestras (muda o auditório, não a falha), então vale a pena contá-las com algum detalhe para que ninguém as descubra ao vivo como eu. Tem gente que não sabe ler um QR code, ou que tem a câmera cheia de outras coisas e ela não abre. Já peguei um auditório num subsolo onde a conexão era péssima. E sempre tem quem saia no meio (porque respondeu uma mensagem, porque fechou a aba sem querer, porque chegou atrasado) e depois queira entrar de novo, justo quando eu já estou na quarta pergunta e o QR code ficou no slide do começo.

Talvez alguém pense que isso é exigir demais de uma palestra, e que o sensato é falar e pronto. Entendo, e há palestras em que eu não colocaria nem uma pergunta, porque, se o tema não precisa da plateia, interrompê-la para votar é puro enfeite. Mas, quando precisa, o custo da falha se mede em pessoas. Se de trezentas e cinquenta ficam de fora dez por cento, são trinta e cinco pessoas, uma sala de aula inteira olhando os outros participarem.

Então a gente vai pegando umas manhas. Nenhuma é sofisticada. A primeira é ter um plano B para quem não consegue com o QR code: um código curto que se possa digitar à mão e um endereço que se possa ditar. A segunda, e para mim a mais importante, é que o QR code esteja sempre visível, não só no começo; as pessoas se desconectam sem querer, saem para fazer outra coisa ou chegam atrasadas, e quem quer chegar no meio do caminho tem que conseguir se conectar sem pedir para voltarem o slide. A terceira é assumir que a conexão do lugar vai ser pior do que o organizador disse, e testá-la da última fileira antes de começar (do palco sempre funciona).

Tem mais uma coisa que aprendi, e é sobre o tamanho. Com doze pessoas dá para perguntar em voz alta e ouvir cada uma (e deveria, a ferramenta ali quase sempre sobra), mas com trezentas e cinquenta não, e aí a enquete deixa de ser uma brincadeira e passa a ser a única forma de saber o que a sala pensa; então as perguntas têm que ser curtas, daquelas que se respondem em dez segundos com o polegar, e o resultado tem que aparecer grande no telão. Uma pergunta com cinco parágrafos de contexto, diante de um auditório, é uma pergunta que ninguém responde.

A questão do QR code sempre visível eu resolvi na ferramenta que construí, o Kai Interact (levem em conta o viés de quem a fez): o telão mostra o QR code e o código o tempo todo, não importa em que atividade estejamos, e quem sai e volta entra com o mesmo código na atividade que estiver aberta. É uma bobagem de design, mas foi a que mais gente me devolveu à conversa.

Telão com uma escala ao vivo e, à direita, o QR code e o código para entrar
O telão: o QR code e o código ficam no canto durante toda a sessão, não só no primeiro slide. Sessão de demonstração.

Fico com a pergunta contrária, e não a tenho resolvida. Onde está o limite em que a enquete começa a atrapalhar numa palestra? Acho que é quando a gente pergunta para mostrar a ferramenta e não para ouvir as pessoas, mas não sei se percebo isso sempre a tempo. Como vocês percebem?

Até a próxima. Mauro Z.

Mauro Z

Mauro Z (Mauricio Zúñiga) facilita workshops de estratégia e inovação em todos os níveis de uma organização, de comitês executivos a auditórios de quinhentas pessoas. É professor da Pontificia Universidad Javeriana, na Colômbia.

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