Blog · Na sala de aula · Leer en español · Read in English
Aula interativa: a primeira pergunta decide o que vou ensinar naquele dia
Antes de começar, pergunto o que a turma já sabe. Quando 75% disseram que nunca tinham usado IA no Excel, a aula que eu tinha preparado deixou de servir.
Quase todas as minhas aulas começam com uma pergunta que não é da matéria. Antes de falar de inteligência artificial, pergunto quantos já usaram, que modelos testaram e para quê; antes de falar de modelos de negócio, pergunto algo parecido sobre o tema do dia. Não é para quebrar o gelo (para isso existem formas mais divertidas). É porque a resposta decide o que vou ensinar nas duas horas seguintes.
A lógica é simples, e me surpreende o pouco que a usamos (eu incluído, durante anos). Se vejo que as pessoas já conhecem algo do tema, dou uma profundidade maior e pulo o que seria repetir o que elas já sabem; se vejo que a imensa maioria nem sequer explorou o assunto, faço uma versão menor e começo do zero. Faço isso na graduação, no mestrado e em treinamentos para empresas, e quase sempre a aula que acabo dando não é cem por cento a que eu tinha preparado.
O exemplo mais recente aconteceu num treinamento (conto porque o número me surpreendeu). Perguntei se já tinham usado a inteligência artificial dentro do Excel, e setenta e cinco por cento disseram que não. Aí vi a oportunidade de ensinar desde o começo para que serve, com calma, em vez de me lançar nos truques avançados que estavam na apresentação. Se a maioria tivesse dito que sim, a verdade é que a aula teria sido completamente diferente, e quem já sabia teria se entediado com o básico enquanto os outros se perdiam no avançado.
Vamos pensar na escala desses setenta e cinco por cento. Numa turma de quarenta pessoas, são trinta que nunca tocaram na ferramenta de que vou falar, e dez que sim. Se eu tivesse dado a aula que trazia, estaria falando para dez e perdendo trinta, e o mais provável é que só percebesse na avaliação (ou nunca, porque num treinamento curto não há avaliação).
E por que não perguntar com a mão levantada, como sempre se fez? Há um detalhe que importa mais do que parece: que a pergunta seja anônima. Se eu pergunto “levantem a mão os que nunca usaram IA no Excel”, quem levanta a mão são os corajosos, e numa sala de profissionais ninguém quer ser o que não sabe. Quando a resposta sai do celular e ninguém vê a do vizinho, os setenta e cinco por cento se atrevem a dizer que não, e esse “não” é justamente o dado de que eu preciso.
Agora, a objeção. Há colegas que acham que o celular na aula distrai, que, depois que o aluno o desbloqueia para responder, ele não volta mais, e que a participação com telinhas é mais show do que aprendizado. Não sei muito bem o que dizer a eles, e digo isso com honestidade: tem gente que pensa assim, e com certeza eles têm aulas em que isso aconteceu. Para mim funciona, e acho que a diferença está em o celular ter um trabalho concreto e curto (responder, olhar o resultado, guardar de novo) e não ficar aberto a aula toda como uma porta para o WhatsApp.
Também não quero exagerar. Uma pergunta no início não transforma uma aula em interativa, e há aulas expositivas maravilhosas em que ninguém toca no celular. Mas acho que o professor que não pergunta o que a turma sabe antes de começar está ensinando para uma turma imaginária, a que ele tinha na cabeça quando preparou os slides, e essa turma nunca está na sala.
Para esse tipo de pergunta, o Kai Interact, que eu construí (então levem esse viés em conta), tem um modo Aula: a resposta aparece em barras no telão em segundos, o professor vê os nomes e a turma não, e a mesma pergunta pode ser repetida no final para ver o quanto a sala se moveu, que é uma forma bastante honesta de o professor se avaliar.

Fico com a dúvida de sempre. O que vocês fazem quando a sala sai dividida ao meio, com metade da turma que já sabe e metade que não? Eu costumo ir pelo meio-termo, e não tenho certeza de que seja o melhor para nenhuma das duas metades.
Até a próxima. Mauro Z.
